Bailarinas brancas

imagem: pinterest

Vou subir por essa escadaria de mármore e me encontrar no alto, no último degrau onde danço nas pontas dos pés e aperto os olhos para ver o brilho da minha saia ao rodar no tempo. Seguro firme no corrimão e percorro a madeira escura pelos veios e percebo que coincidem com as veias azuladas dos meus braços, feito rios desenhados à linha.


Ergo lentamente uma perna e pouso as sapatilhas, uma de cada vez, na superfície lisa e fria que promete ser o meu apoio. A escada ainda se forma, sempre que olho para o fim há uma nova curva e me busco aflita com os olhos bem abertos: estou lá, vejo as bordas brancas do meu vestido honesto. Mas por que pareço assim tão distante no topo desse caracol?


Não sei, não sei pensar. Levo a mão à boca como quem abafa o espanto e encontro em seu lugar um botão, sem casa. Não há agulhas por perto, nem tesouras para forçar o abrigo. Quero alcançar logo o último degrau ou abrir o buraco por onde a boca-botão possa escapar ou se alojar e perco as forças.


Preciso deslizar para cima e lembro das lesmas, penso nas asas que não tive e vejo as minhas pernas prenderem fogo quando ainda faltam três para tocar em mim, três, três imensos degraus, enquanto danço em luz sem me perceber.


Sinto que posso me atingir se soprar bem forte, posso ouvir a minha presença e estender a minha mão para a moça que se desintegra no caminho, mas me falta o ar e a intenção. Dois pesos e a vertigem, um salto e o vazio. Não sei se vejo o escuro ou o colorido. Não lembro se peguei na minha mão ou desabei. Vi por dentro que veio o vento e pó.


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Bailarinas brancas é um conto do meu primeiro livro, De solas e asas. É muito estranho e interessante reencontrar textos antigos. Daquela pessoa que escreveu essas histórias curtas tão cifradas já me fui. :)

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