Domingo na Leão


Apenas. / Foto: Andréia Pires

Lá:


A lâmina afiada roça o naco bem passado de filé para frente e para trás. A carne se abre sem resistir. A parte espetada no garfo mergulha na geleia de morango e depois na farofa temperada antes de ser levada à boca, de ser mastigada e misturada com língua e fome, de ser engolida com saliva e culpa. A caminho da churrascaria Leão, a do Parque, a do São Paulo, a tradição dos domingos, Tiago mexia no celular enquanto o pai dirigia e reclamava do inoportuno, inconsequente e temerário governo do presidente certo na hora certa. Viu passar na timeline da rede social o vídeo em que uma terna e amarronzada vaca aproxima-se de um rapaz deitado na grama, senta-se junto do moço e encosta a cabeça no peito dele, de orelhas baixas como os cães que pedem carinho. E recebem, irresistíveis. Aconchegada ao humano que usa camiseta de Star Wars idêntica a que Tiago veste, a vaca fecha os olhos, satisfeita pelo cafuné. Corações, uaus e joinhas se multiplicam ao pé da postagem milhões de vezes visualizada e replicada desde ontem, fluxo a que Tiago se junta incluindo comentário de admiração, pelo inusitado da reação bovina, e de apreço, pelo inusitado da reação do homem. O garçom oferece mais brochê de filé. Tiago faz que não com a cabeça.


- Satisfeito, cara. Valeu.


*


Cá:


Domingo. Tenho um nó cego na altura do estômago, acho que perdi o apetite. Foi o tempo em que a corrida de picanha ao alho, costela doze horas, maminha, entrecot e cordeiro pelo meu prato me empolgava. Alguma coisa anda estranha comigo, pulei o café da manhã me guardando para o almoço na Leão e agora, de frente para esse pedaço bem passado de filé, não sinto vontade de comer. Tento enfeitar com geleia de morango e farofa, mas na boca tudo fica um bolo agridoce que rolo para lá e para cá entre os dentes, difícil de engolir. O pai nunca nega o espeto corrido, nem quando está pelas tampas como hoje, desenganado com o governo golpista, como ele diz. Não sei ser assim, acho. Fico um tempão martelando as coisas e misturo tudo, não sei separar o que eu curto do que me desagrada, fica uma bagunça danada por dentro. Deu no Facebook um vídeo fofíneo de um cara fã de Star Wars que nem eu, a camiseta igualzinha a minha, o jeito de usar o cabelo, um monte de coisa em comum que o cara bem que podia ser eu até. Enfim, o cara tá de boas deitado na grama e do nada aparece uma vaquinha marrom que vai chegando perto, chegando perto, e, meu, ela faz que nem cachorro quando quer carinho, que cola as orelhas para trás na cabeça e a gente não aguenta de ver e tem que fazer cafuné e falar com vozinha de retardado, como se o bicho fosse bebê. Daí o cara faz e a vaca se deita do lado, a cabeça encostada no Yoda do peito dele, muito impressionante. Fico pensando no bizarro disso tudo, tipo: que alguém gravou o cara, a vaca, o carinho, botou na rede e zilhões de pessoas curtiram e tal, mas que logo ali isso acaba, alguém mata a vaca, o cara come, apesar dos escândalos de fraudes nos frigoríficos do país, e acabou. Não, não acabou, vem outro cara e outra vaca e começa o mundo a andar de novo. E eu podia ser o cara. Eu podia ser a vaca. Não sei se já não sou. Os dois. Ou nada. O garçom volta e me oferece mais, agora é o tal do brochê de filé, que vem com tomate e cebola e bacon antes e depois da carne. Não aguento. Eu me recuso.


- Satisfeito, cara. Valeu.

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contato@andreiapires.com.br | Rio Grande (RS)

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