Em tempos de pandemia, mães empreendem em Rio Grande

Atualizado: Abr 2


Roda de conversa do Mãe Empreende 2020, no dia 14 de março passado. I Foto: Andréia Pires

Pouco mais de duas semanas atrás a vida era completamente outra.


14 de março, à tarde, participei do Mãe Empreende, e logo voltei para casa. Falou-se muito sobre os desafios de produzir o próprio negócio, sendo mulher e também mãe, mas nada foi dito a respeito do novo coronavírus, que já ameaçava chegar aos confins do Rio Grande do Sul. Foi a última vez que estive em uma atividade pública. E pela primeira vez senti medo real de ser contaminada ou vetor de uma doença desconhecida. Mas nisso só pensei depois, enquanto escrevia a matéria e lia notícias da região.


Quando o encontro terminou chovia fraco aqui no Cassino, as mulheres dispersaram rápido do local da reunião, mas seguiram dialogando no grupo de whatsapp formado exclusivamente para organizar o evento. A prefeitura ainda preparava os órgãos de saúde para enfrentar o cenário difícil que chegaria em breve. Rio Grande só registraria o primeiro caso suspeito da Covid-19 no dia seguinte, quando as escolas da rede municipal, por decreto, teriam atividades suspensas. As medidas de prevenção ao vírus estavam nas primeiras etapas, afetariam de imediato as rotinas e os planos de cada uma das mulheres que dividiram comigo expectativas e experiências de trabalho naquele sábado.


Ensaios fotográficos, produção de conteúdo para mídias digitais, consultoria em arquitetura, produção de artesanato, venda de cosméticos, de roupas e de acessórios, projetos relacionados à alimentação, a variedade de negócios é enorme e a maioria deles depende do encontro físico com o cliente. Bem, dependia. Depois dos primeiros dias de assombro e perplexidade, as mães empreendedoras começaram a se mobilizar para reinventar suas propostas de negócio de modo a adaptá-las ao contexto de distanciamento social. O Mãe Empreende 2020 gerou um vínculo importante, que tem mantido o clima de cooperação entre elas. Mas como manter o projeto de negócio ativo durante a pandemia? A resposta certa ainda não existe, as alternativas, contudo, já começam a aparecer. Para todas.



Buscar oportunidades nas dificuldades? Elas sabem


Sim. A rotina anda estranha e difícil para todo mundo e nada mais será como antes. Não temos sequer noção de quando teremos sinal verde para a convivência física em sociedade outra vez. É hora de ativar a criatividade na máxima potência, tirar do plano das ideias aquelas colabs, e construir caminhos cada vez mais coletivos (e provavelmente digitais) para atravessar essa temporada de pandemia, principalmente no que diz respeito ao sustento familiar. As mães empreendedoras já entenderam que contar de si, de experiências bem sucedidas ou nem tanto, nunca foi tão eficaz e têm usado o convívio virtual para trocar informações, estudar, testar formas para seus negócios, fortalecer parcerias, promover o trabalho umas das outras, pensar saídas para a crise. O que uma já aprendeu ensina às que querem saber.


Uma das estratégias da Juliana Souto, da Bojoux da Juh, é dar mais atenção ao público que antes não tinha tempo para apreciar e comprar semijoias. “Intensifiquei o contato online, as vendas pelas internet através de link do pagseguro, e personalizei as fotos conforme o perfil das clientes. Aproveitei para analisar com mais calma e oferecer peças que combinem com o estilo de cada uma, conta. “E tem funcionado muito bem! Entrego através de motoboy e tenho mantido as novidades postadas nos stories no instagram diariamente”. Juliana já prepara promoções e descontos para quem comprar dela nesse período.


Com a Cooking Biscoitos recém-saída do papel, a saúde da família foi o que mais pesou na decisão tomada por Luiza Vieira Costa de estacionar o projeto enquanto planeja nova forma de viabilizar o negócio. “Antes dessa pandemia as coisas iam bem, estava captando clientes e fazendo entregas praticamente todos os dias. Quando as coisas no município começaram a se agravar, optei por parar a produção, pois sabemos da gravidade do vírus e minha filha e meu marido têm problemas respiratórios, são considerados grupo de risco. A receita está fazendo muita falta neste momento, porém a saúde deles não tem preço. Estou tentando elaborar uma maneira de poder voltar e entregar sem risco para ninguém”. Há cerca de três meses a marca da Luiza produz goiabinhas e biscoitos de queijo.


A técnica em contabilidade Patrícia Leivas Costa é funcionária pública e aposta nos cosméticos como fonte de renda secundária. Enquanto durarem as medidas de prevenção, Patrícia faz um intervalo pensando no bem coletivo. “Optei por não buscar novas formas de vendas por entender que o momento é de reclusão. Ficar em casa é para todos, e quanto melhor fizermos isso mais cedo vai acabar”, explica. Até lá, ela usa as horas de folga do home office para dar informações e dicas sobre seus produtos, mantendo a conexão com os clientes. A loja de manutenção de celular, tablet e videogame que a Mariana Cândido toca com o esposo, a Tech Touch, também está fechada no momento. Ela conta que ainda estão determinando como vão dar continuidade ao trabalho no período atípico. O atendimento de pedidos de reparo ou acessórios tem sido feito pelos canais da loja nas redes sociais.


A designer de interiores e analista imobiliária, Ingrid Garcia, que já vinha ocupando espaços no atendimento online com projetos de design de interiores e consultoria nas modalidades express e premium, neste momento pode aperfeiçoar alguns dos serviços inovadores que oferece, como ''home choice'', ''home staging 3D'' e projeto de design astro elementar.



Do primeiro aniversário do filho da Mariana Gomes, com peças do Feltralizando com Mari.

Mariana Gomes, do Feltralizando com Mari, há três anos concilia a paixão pelo artesanato em feltro com o trabalho fora, planejando tornar a costura sua principal fonte de renda no futuro. Com o cancelamento geral de eventos, a procura pelos artigos de festa que ela faz caíram muito. Se, por um lado, isso resulta em prejuízo, por outro cria condições para que Mari realize um desejo antigo: “como trabalho fora e passo o dia longe do meu filho, e sempre quis poder ficar com ele e só com o artesanato, mas por questões financeiras não podia, toda essa pandemia me proporcionou fazer o que eu gosto que é o artesanato, trabalhar em home office e ainda ficar com ele. Entre uma costura e uma planilha em Excel, uma brincadeira, um abraço ou simplesmente fazer o café da manhã dele”. Produzir o primeiro aniversário do filho com peças em feltro foi o pontapé inicial do projeto de Mariana.


Pedagoga por formação e artesã por paixão, Liane Lopes conta que fez do artesanato complementação de renda e uma terapia com o Mil Encantos. Desde 2018, ela trabalha com tricotin, uma corda de linha (ou lã) trançada, moldada em arame, e neste ano resolveu intensificar o projeto. “Sou mãe de dois, um casal, sendo o segundo filho recém-nascido. Com o nascimento dele decidi que abriria mão de trabalhar dois turnos como professora, precisando, então, levar mais a sério meu artesanato”. A maior dificuldade, para Liane, é a divulgação nas redes sociais. O contexto do isolamento social pode dar o empurrãozinho que faltava para que o projeto dela amplie seu público.


Liane Lopes, do Mil Encantos, e os filhos.

O exemplo que influencia a rede de mães empreendedoras


As mulheres que participaram das duas edições do Mãe Empreende têm Tanara Hormain, jornalista, fotógrafa, mãe do Levi e idealizadora do evento, como referência, na maternagem e no empreendedorismo em Rio Grande. O reconhecimento é resultado de muito esforço, dedicação, estudo e confiança no próprio taco que só a vivência profissional dá. A quantidade de seguidores do trabalho de Tanara nas redes sociais não para de aumentar e os indicadores refletem essa cumplicidade especial com um público majoritariamente feminino e empreendedor.


A realidade que Tanara compartilha, o testemunho do cotidiano, parece ser o coração do vínculo. “Nosso cantinho vem crescendo devagar, não porque não sei a receita do bolo, mas porque eu não quero segui-la. Prefiro mostrar a verdade, sem personagem de novela. Óbvio que os números alcançados agora atraem ainda mais novas mamães, mas foi um público conquistado através da verdade, do afeto”, explica.


Para ela, o maior desafio durante o período de distanciamento social tem sido trabalhar em casa com Levi por perto. “Ele não entende que agora é hora de trabalhar. Estou presente, ele quer brincar! No início eu me assustei muito, morri de medo de ficar sem dinheiro para mantê-lo, tendo em vista que eu sou a fonte de renda na casa, mas quando parei de pensar bobagem e botei a ‘mão na massa’ meus pensamentos mudaram”, diz. “Meu maior susto começou quando os clientes não pagaram os serviços que já tinham sido prestados, pessoas que faziam parte da nossa vida e sabem que nossa empresa é familiar. Foi um susto, mais inesperado que o COVID-19. Sentir-se em uma posição de vulnerabilidade é horrível, mas é ainda pior com filho”.


A rede criada pelo Mãe Empreende “é essencial para manter todas cientes de que juntas vamos vencer essa fase [delicada de distanciamento social que a pandemia impôs], de que não estamos sozinhas em nossos medos e incertezas. Em muitos momentos que elas se sentirão sozinhas elas poderão entrar no grupo e ver que todas estão passando por algo similar, uma pode oferecer a outra um ombro amigo”, aposta.


Desde que as primeiras restrições começaram em Rio Grande, a Tanara repetiu em postagens sua preocupação com os pequenos negócios e estimulou o consumo de produtos e serviços justamente deles, os que sofreriam os efeitos diretos da pandemia em âmbito local. Levantar esse ponto de discussão fez o conjunto de mulheres empreendedoras se mobilizar para atravessar a crise com menos perdas e mais solidariedade. Tem funcionado. Aqui, mulheres têm apoiado – e influenciado e divulgado e consumido de – mulheres.


Bacana. Quero apoiar também. Como faço?


Vem por aqui:

[Lista de alguns projetos de negócios de mulheres que participam da rede Mãe Empreende]

@tanarahormain

@bemcasadosdarafa

@_milencantos_

@feltralizandocommari

@bijouxdajuh

@sonhodecrochedalica

@lowfit.rg

@atcrochemamae

@mammaroots.store

@ingridgarciaconsultoria

@ivanponsriogrande

@cosme_ticospaty

@deksabrigadeiria

@ninhobabystore

@danipintadolookeacessorios

@cookingbiscoitos

@techtouch_rg

Em tempo

Governo Federal deve liberar auxílio financeiro emergencial de R$600 a trabalhadores informais. O projeto já foi aprovado pelo congresso, mas ainda não teve sanção do presidente, ou seja: as pessoas que precisam acessar os recursos ainda não têm informações sobre como fazê-lo.

Até ontem, 31 de março, estavam confirmados 777.798 casos de Covid-19 e 37.272 mortes no mundo inteiro. Desses, o Brasil tinha registrados 5.717 casos da doença e 201 mortes. Rio Grande, já no décimo dia do Novo Protocolo de Vigilância Epidemiológica, conta no momento dois casos confirmados.


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contato@andreiapires.com.br | Rio Grande (RS)

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