Espera verde


A cidade fala demais. | Foto: Andréia Pires

Indiscutíveis sobre a minha superfície são essas marcas do tempo passando: ranhuras que o vento e a chuva têm feito, construções deixadas para trás, ruínas de pessoas debaixo de marquises, ruas arteriais congestionadas perto das seis da tarde, cada vez mais edifícios de alto nível bem na altura do meu coração. Meio que sou memória de muitos ciclos convivendo com a novidade do contemporâneo, que já me alcança ultrapassada. E toda a experiência acumulada não me serve de nada agora. Que tenho em meu colo essa criança aflita, desarvorada.


Ele não chegou, surgiu em mim, ao modo de espinha em tempos de tensão pré-menstrual, dolorido e inesperado, costumeiro. Era sábado, as pessoas zanzavam em muitas direções no calçadão, pouco mais de onze da manhã, quando ouvi o primeiro choro. O menino estudava o entorno com olhos de abandono, o rosto lavado em susto. Prestei atenção. E dobrou à esquina na Andradas em direção à Praça Xavier Ferreira, a mãozinha esfregando o ranho de cima da boca para a bochecha. No cordão da calçada do ponto de táxi, na Marechal Floriano, ele estaqueou de pés juntos, observou o movimento dos carros e seguiu ao outro lado da rua logo atrás da moça que cruzava a via ao mesmo tempo em que falava com alguém ao celular. Um casal de velhinhos também atravessou, sem dar-se conta da situação. Não sou capaz de julgá-los, também não dou conta do tanto que acontece debaixo do meu nariz.


Podia sentir a agonia do menino como se fosse minha, a comer o estômago por dentro. Era agonia ou fome, ou agonia e fome, tudo o que ele tinha. É o que sobra aos perdidos, sei bem. Ele tinha também a mim, mas não sabia e nem poderia, naquelas condições, perceber minha presença de zelo. Quase meia-hora que o acompanho e ainda ninguém veio a seu encontro. Faz frio, mas o menino está bem agasalhado, de touca de lã e casaco acolchoado azul celeste, não é difícil identificá-lo, assim perto do chafariz. É até bonito de ver as pombas cor do céu voando perto, os senegaleses lá adiante com suas banquinhas improvisadas de meias e lenços e bolsas à venda, o Mercado fervendo.


Ele volta um pouco pelo caminho da estradinha e, já próximo do obelisco, está exausto, quer parar, quer sumir, não chega a querer morrer, pois ainda não conhece esse sentido agudo dos desesperados, quer a mãe. Ela não vem. Não vem. Os arbustos foram aparados recentemente pela prefeitura, alguém bastante atencioso faz um trabalho de minúcias por ali há anos, tornando a poda das moitas pequenas esculturas verdes no interior dos canteiros. Algumas, inclusive, servem de esconderijo para namorados adolescentes, que fogem das aulas e veem experimentar seus amores em paz, longe das vistas dos outros. Mas hoje, não. Nada de namorados escondidos. O arbusto em forma de casulo abriga o menino cansado, que entra, senta, encolhe-se sobre seus joelhos e, de esperar, pega no sono. Faço força para manter o chão sob seu corpo aquecido. Posso, que ainda me lembro, cantar algo de ninar. Se nunca mais for encontrado pelos seus, será meu. Vai amolecer aos pouquinhos e se moldar a mim.

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contato@andreiapires.com.br | Rio Grande (RS)

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