Rosa desolada


Cores de Outono Quente | Foto: Andréia Pires

Chove sem parar desde pouco mais de três da tarde e uma lembrança me acompanha pela casa, enquanto lavo a louça, tiro o pó, ajeito as mantas dos sofás, alimento os doguinhos. Aquele dia no jardim de infância, eu sozinha no gira-gira, recreio terminado.


Mais cedo, no trabalho, falávamos sobre comer mais saudável e sustentável e nossos esforços diários, possíveis e sinceros para salvar o planeta. Eu que nunca fui de carnes, confessei que andava sentindo falta, vontades de um bife bem passado, até salivei. O arroz com galinha maravilhoso da minha mãe, recordou a colega mais experimentada da sala na jornada vegetariana. Chur-ras-co, o cheiro da carne assando e as pessoas de casa que o churrasco juntava, completei com saudade, logo eu que sempre fugi dos churrascos. É a memória afetiva que essas comidas evocam que nos fazem querer ter a sensação boa de volta, não exatamente o gosto da carne na boca, minha colega decifra o desejo.


É mais automático do que óbvio.


Churros de doce de leite de determinada carrocinha do calçadão, por alguns minutos me devolvem a adolescência. Bolo de chocolate com café preto me joga de volta naquela época feliz em que pude me dedicar completamente a escrever e estudar, diz ao meu corpo que posso ser livremente criativa. Se falar em gemada, leite quente com macela e manteiga de cacau perto de mim vai me ver fazer careta e revirar os olhos, provavelmente do mesmo jeito que fazia na infância quando não tinha muito querer e era preciso combater o frio do inverno.


Essa relação entre comer e lembrar só faz sentido assim, com as conexões expostas por escrito, quando estou bem longe de pratos cheios que me imobilizam o raciocínio. Não se come o tempo, é o tempo que mastiga e engole a gente e não tem rodízio de comida que devolva o aconchego dos almoços de domingo, a segurança da nossa história como ela é porque já passou e nos fez estar exatamente aqui, num intervalo, pensando na compensação de afetos que vem a seguir, na próxima pizza que o motoboy vai trazer.


Fiquei repisando essa questão a tarde inteira, enquanto cuidava da casa, tentando espantar com chá de cidreira o ranço que tenho dos dias de chuva e inverno e enfim. E lembro de novo e de novo de uma tarde meio esverdeada no pátio da escola, eu sozinha, toda vestida de rosa, paralisada no gira-gira. A imagem pisca na minha cabeça. Tenho fome de qualquer coisa quente e doce, talvez o leite achocolatado que a mãe se desdobrava em argumentos para me fazer tomar ou o café preto adoçado numa medida que só ela acerta pra mim até hoje. Faz cinco dias que cortei o açúcar das minhas refeições.


É mais automático do que óbvio.


Há meses tenho me divertido e autocuidado pesquisando cores, porque adoro e porque de um jeito muito particular sinto que esse movimento está criando em mim uma narrativa que, sei bem, logo ali vai me tomar inteira, ocupar meus dias e meu sossego até se materializar em mil parágrafos num arquivo do word. Gosto de deixar vir assim, sem freios, o texto. Escrita para mim, como a memória, é afeto. Só o que me afeta mobiliza minha escrita, o resto passa.


Descobri que tenho as cores quentes do outono. Amarelos, verdes, laranjas, marrons, os terrosos mais intensos. Não é lindo? Se encontrar em cores e, de repente ter sóis por fora e pro dentro? Posso manobrar pretos e brancos de modo a me favorecer, se quiser. Rosa comigo não dá bom. Amarelos, sempre.


Espio pela janela as poças que a chuva já faz na grama enquanto passo o dedo pelo círculo cromático de papelão que tem ajudado nos estudos. Acho que enjoo um pouco. E passa. Eu menina, de novo, plantada no gira-gira da escola, desolada, olhos no chão. A calça de abrigo rosinha-chiclete que me veste está molhada nos fundilhos. Meus pés nem tocam na areia. O céu é cinza-esverdeado e faz barulho, vai chover a qualquer momento. Em mim já choveu e não consigo me mexer. Acho que nem respiro mais. Tenho cinco anos e a vida se rasgou de cima até embaixo, de um lado a outro, algo se rompeu e não vai ter volta. A vergonha é cor das minhas calças, mas estou tão no começo de mim que ainda nem sei que nome essa dor tem. É rosinha-chiclete misturado com chuva que já vem ou já veio.


É mais automático do que óbvio.


Rosinha-chiclete e dias de chuva me agoniam.


Tenho fome de batata frita. Mas daquela que a vó fazia pra só pra mim, depois de me buscar no jardim, na escola.

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