Sobre compartilhar protagonismos: o que aprendi no "Mãe Empreende 2020"

Atualizado: Mar 17


Mãe Empreende 2020 | Foto: Tiago Dutra

“O Mãe Empreende” é um evento voltado para mulheres mães que têm um negócio começado ou em vias de começar. É promovido pela jornalista, fotógrafa e mãe do Levi, Tanara Hormain, é gratuito e sem fins lucrativos, e estimula a troca de experiências e informações sobre empreendedorismo e maternidade. A segunda edição foi realizada no último sábado (14), à tarde, na Container Cassino.


Não sou mãe, mas empreendo na Concha Editora e pesquiso o tema da maternidade desde o doutorado. O romance da tese foi sobre isso (O céu riscado na pele, do que muito vão me ouvir falar nos próximos meses, porque até o fim do ano vira livro.). Sigo estudando o assunto, porque me interessa seguir escrevendo ficção sobre mulheres, em especial mães. Eu só sei ser filha. Ouvir mães falando de si me ensina muito sobre modos de ser mulher-mãe. Principalmente fora do meu círculo familiar. E me dá referências para criar.


No fim de janeiro, vi no instagram a postagem da Tanara com a chamada para o “Mãe Empreende 2020”, e a observação antes das hashtags “Não sou mãe, posso ir? Pode.” que me deu o estalo: opa, é a minha chance. Já tinha me interessado pelo rolê da primeira vez, mas por não ser exatamente público-alvo, acompanhei de longe. E torci para que desse certo, mulheres que se juntam me emocionam. Pelo que tenho acompanhado desde então e pelo que vi sábado passado, deu muito certo. E tem tudo para continuar dando.



Mas mãe empreende?


E como.


Livia Davila, doutora em administração, professora de empreendedorismo da FURG e mãe da Duda, sentou com as mais de 40 mulheres que aguardavam a conversa. “Acho que tenho muitas coisas para falar sobre a visão que as pessoas têm do empreendedor. E eu venho da academia, da ciência, e então lá a gente estuda o que é empreendedorismo. Eu sou só uma professora de empreendedorismo enquanto muitas de vocês são empreendedoras de fato”, iniciou. Das descobertas de seus estudos, trouxe para a gente dados atualizados do panorama empreendedor brasileiro. Por exemplo:


* 24 milhões dos negócios no Brasil são conduzidos por mulheres; praticamente metade dos negócios do país, segundo pesquisa do Sebrae divulgada em 2019.


* 75% das mulheres que empreendem são mães.


* 48% das mulheres empreendedoras já sustentam suas casas.


* independência financeira é a principal motivação para que mulheres empreendam.


* no empreendedorismo, mulheres demoram mais a atingir patamares onde os homens já figuram, por diversos fatores; a falta de incentivo e a falta de tempo são os principais deles.


Lívia explicou que empreendedorismo vai além da iniciativa de começar, “é revolucionar financeiramente determinado mercado”, implica ter CNPJ, gerar emprego, mobilizar a economia da cidade, entre outros aspectos. Para que a vontade de começar vire negócio efetivo, o estudo sobre empreendedorismo e novos negócios foi a recomendação de Lívia. Ela indicou ainda assessoria e conteúdo de instituições como o Sebrae, a FURG, a Endeavor, além de consultorias independentes e especializadas, e eventos como o “Mãe Empreende”, que podem colaborar com a qualificação dos negócios de mães que já tem uma caminhada empreendedora ou querem se aventurar.



Livia Davila fala sobre empreendedorismo feminino no Mãe Empreende 2020 | Foto: Andréia Pires

Livia Davila fala sobre empreendedorismo feminino no Mãe Empreende 2020 | Foto: Andréia Pires


E por onde começa a empreender?


Depois das orientações da Livia, quatro mães que participaram do evento em 2019 compartilharam experiências sobre como tem sido tirar seus negócios do papel. A Tanara contou de como começou com a fotografia e hoje mantém um estúdio fotográfico; a Ingrid Garcia, que toca um estúdio de design de interiores, disse de dificuldades que tem superado e das vantagens de ser a própria chefe; a Rafa, dos Bem Casados da Rafa, se desafiou a falar em público e explicar os benefícios de definir um nicho de produto; e a Marcella Martinelli, da recém-criada Mamma Roots Store, destacou a importância do processo de maturação da ideia do negócio.


Marca pessoal e identidade visual contam muito, mas para Tanara, “foco e autenticidade é que vão diferenciar o teu negócio”. Conciliar a produção com a criação dos filhos, fazer as pazes com a autoestima depois do puerpério e ressignificar concorrências firmando parcerias também fazem parte do empreender materno com sentido e, com muito planejamento, sucesso. “Esse sentimento [de se reencontrar com a própria confiança] é intocável”, disse a Marcella.


A roda de conversa poderia ter durado o dobro do tempo, de tanto que rendeu assunto. Várias mulheres participaram, com histórias pessoais valiosas. O sorteio de cerca de 30 produtos e serviços de mais de 20 empresas parceiras (todas lideradas por mulheres presentes) foi o fechamento do evento.


Da esquerda para a direita: Tanara, Rafa, Ingrid, Marcella. Também tem eu me espichando lá no cantinho, no Mãe Empreende 2020 | Foto: Tiago Dutra

A Marcella Martinelli, cheia de orgulho, contando da Mamma Roots Store. | Foto: Andréia Pires


E eu, não mãe, com isso?


Bem, ainda estou elaborando.


Escolhi três livros publicados pela Concha para contribuir com o sorteio, três títulos escritos por mulheres (8 horas por dia, da Ju Blasina, O amor errado mais certo do mundo, da Daniela Altmayer, e o meu Azaleia para erva de passarinho), universos artísticos completamente distintos um do outro, todos cruzando com os propósitos do evento de inúmeras maneiras para além do gênero de quem os produziu, acho eu. Queria achar.


Levei a sacolinha com os pacotes de livro meio sem jeito, passei o encontro observando e aprendendo, tentando me conformar com a sensação de estar deslocada da pauta, minha impostora sempre no radar. Ganhei um prêmio no sorteio e adorei. Fui chamada para sair na foto com as mulheres que ganharam os livros que presenteei. Será que terão alguma relevância para elas um dia? O tempo todo busquei entender o motivo de querer estar lá e de ter ido e no fim acho que sim, aprendi algo para não esquecer: é sobre entrar na partida e manobrar o jogo financeiro, claro, mas é antes sobre construir espaços para sermos as mulheres que temos vontade de ser e que fazem o que sentem desejo de fazer, no sentido de propósito de vida, de deixar legados.


Para mim, foi uma experiência bem interessante. Me deslocou do meu sofá de conforto, me fez pensar. Mais. Sobre o meu lugar de mulher aqui e sobre mulheres que criam: filhos, histórias, negócios, futuros, tudo junto. As que se reconhecem parceiras e conseguem nutrir conexões de apoio e valorização do trabalho umas das outras se fortalecem e voam. Isso tudo tem de muito novo o modo de acontecer, o vínculo entre essas mulheres se dar e se expandir em meio virtual, da internet para as rotinas individuais e da cidade. Contudo, a dinâmica do encontro, da partilha e do fortalecimento do grupo pela junção das individualidades de mulheres, sobretudo mães, não começou com o instagram; é assim desde que o mundo é mundo, desde que mulheres passaram a se reunir e conversar e se ajudar que se educam informalmente e se encorajam.


Empatia, conhecimento e validação de nossos pares empoderam, seja na comunidade física (na família, no culto, no bairro...) ou na comunidade virtual. O “Mãe Empreende” é um movimento muito bonito (puxado pela Tanara Hormain, mas não por isso de construção menos horizontal), uma mobilização de mulheres por elas mesmas, sem instituições a mediar. Protagonismos compartilhados têm muita força. E o exemplo inspira.


Crianças foram muito bem-vindas no Mãe Empreende 2020. <3 | Foto Andréia Pires


Tem muita mãe empreendedora em Rio Grande, contando histórias incríveis com o próprio trabalho. A gente devia conhecer, né?



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contato@andreiapires.com.br | Rio Grande (RS)

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